Friday, October 15, 2010

Sussurros do Passado-parte 2

Anaa! Sua voz ecoou pelas ruas desertas daquela cidadezinha desolada. Ana, cadê você?! Ele sentia-se rouco mas não podia parar de procurar, já havia começado a nevar e ela certamente adoeceria. De repente parou, havia avistado algo a certa distância numa rua esquecida pela guerra, estava tudo branco, então aproximou-se. Ao ver o que era, correu em sua direção.
Ana, Ana te encontrei! Mas não havia resposta. Ele compreendeu de imediato, não poderia fazer nada, olhou seu corpinho perfeito congelando, ela havia deitado numa posição como de que dissesse que estava tudo bem. Sua boca estava entreaberta como se estivesse conversando com alguém, no seu rosto um olhar de paz e calma e o seu caderninho apoiado em seu peito. Pedro não acreditava, a culpa era toda dele, não deveria ter deixado sua irmazinha correr daquele jeito, ele era o irmão mais velho e deveria ter protegido ela. Agora ele estava só, não sabia o que fazer, não havia para onde ir, não tinha ninguém, a última pessoa em quem ele confiara jazia morta a sua frente.
Levantou decidido, pelo menos a enterraria, junto aos seu pais. Abaixou e levantou o corpinho frágil daquela que o havia acompanhado há cinco anos, seu corpo, ainda morno, cedeu a sua vontade. Ao levantá-la, pensou ter visto seus olhos abrindo, não, imaginara-o. Seu caderninho escorregou suavemente de sua mão, o menino apanhou isso também e seguiu em direção a onde sabia ser o cemitério. Chegando lá, se dirigiu ao túmulo de seus pais, deitou-a gentilmente do lado e com uma pá encontrado ali perto, iniciou a escavação. A terra dura cheirava a lembranças esquecidas e cada vez que introduzia a pá na terra, cortava, dentro de seu coração, os fios de esperança que sobraram. Não demorou muito para ele chegar a uma profundidade razoável. Buscou o corpo de seu irmã, agora um casca vazia, e deitou-a no fundo, na mesma posição em que a encontrou na rua, beijou sua face pela última vez e sentiu o cheiro de baunilha de seus cabelos. Ele permitiu que uma lágrima escorresse de seus olhos e caísse no nariz branco da garota e lentamente começou a encher a cova com a terra dura, tentando não olhar para o rosta da menina. Ao final, notou que o caderninho da garota continuava em seu bolso, uma memória viva do que havia acontecido. Olhou para o céu e sentiu vontade de chorar, porém uma imagem não o permitiu, ele viu sua irmã brincando com os flocos e rindo, ela se aproximou dele e o abraçou, uma calor encheu seu peito. Ele entendeu de imediato, sua irmazinha continuava viva dentro dele. Sem remorso ele se virou e saiu do cemitério a procura de abrigo.
Ninguém portanto viu aquele ser fantástico sair de trás de algumas árvores e escrever na lápide dos pais da menina recém-enterrada, com um giro de sua mão: "Ana Cavalcanti, filha, irmã e companheira." Após feito isso se virou e se foi embora, mas não sem antes olhar e dar um sorriso para a imagem da menina que agora se virava e subia para encontrar seus pais.

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